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06/03/2010
HPV e relacionamento conjugal: como a falta de informação pode acabar com um casamento
 
Fui procurada por uma jovem senhora cujo ginecologista detectou uma lesão de colo de útero que, segundo ele, foi causada por HPV. Ela, que é casada há aproximadamente 8 anos, ficou muito aborrecida pois casou virgem e nunca traiu seu marido, portanto, quem passou essa infecção a ela só podia ter sido seu marido. Assim, ela exigiu que ele se submetesse a um exame com o médico urologista para investigar o problema. Entretanto, nada foi diagnosticado. Mesmo assim, o colega fez uma biopsia no pênis do sujeito e nem mesmo nesse exame foi detectada qualquer alteração. Daí, a suspeita se inverteu e o marido começou a desconfiar de sua esposa, mas esta, sem entender o que acontecia, continuou jurando que jamais tivera um relacionamento extraconjugal.

E aí? Será que tem alguém mentindo nesta história?
Para se entender melhor esse caso, vamos primeiro a algumas informações sobre HPV.

1- É um vírus que tem predileção por pele e mucosas no organismo, onde pode causar verrugas e vários tipos de câncer. Estima-se que 5% de todos os tipos de cânceres existentes sejam causados por HPV.

2- Existem 140 tipos e subtipos de HPV, alguns mais perigosos que outros por seu potencial de causar câncer. Mesmo os tipos menos relacionados a essa doença podem causar verrugas de pele e de genitais. Essas últimas são extremamente desconfortáveis, sangram, doem e frequentemente causam muito constrangimento entre parceiros sexuais.

3- Estima-se que aproximadamente 10% das mulheres normais estejam infectadas com HPV e que a cada ano surjam mais de 500.000 novos casos de câncer uterino causados por esse vírus.

4- Além de câncer de útero, o HPV pode causar câncer de vulva, de pênis, de ânus e de orofaringe esses dois últimos tanto em homens quanto em mulheres.

5- Estima-se que pelo menos 50% dos indivíduos sexualmente ativos irão adquirir algum tipo de HPV durante a vida e que 80% das mulheres entrarão em contato com algum tipo de HPV até os 50 anos de idade.

E como se pega esse vírus? Precisa necessariamente ter tido uma relação sexual?
Não, apesar de esse ser o meio mais o comum. O contato entre superfícies já é suficiente, não há necessidade de penetração e, por isso, neste tipo de infecção o preservativo não previne. Relações anais e orais também são de risco para aquisição de HPV. Toalhas, roupas íntimas, etc, podem transmitir o vírus e a contaminação materno-fetal (gestacional, intraparto e periparto) são responsáveis por papilomas em traquéias de recém-nascidos e lactentes.

O que acontece após o HPV entrar no organismo?
Podem ocorrer basicamente 3 caminhos:

1 - Infecção latente: o sistema imunológico da pessoa infectada consegue bloquear o vírus que pode permanecer nesse estado por toda a vida do hospedeiro. Não existem evidências microscópicas de infecção e todos os exames são negativos. O hospedeiro pode eliminar totalmente a infecção ou pode acontecer que em algum momento da vida o vírus passe a se replicar e esta pessoa passe a ser considerada um portador. Se isso vier a ocorrer, pode acontecer que após vários anos surjam lesões neoplásicas (câncer).

2 - Lesão subclínica: neste caso, apenas exames específicos como biópsias ou exames mais sofisticados (biologia molecular) detectam as lesões. A maioria dos pacientes infectados permanece nesse estado durante toda a vida. Entretanto, dependendo da imunidade do hospedeiro, pode haver em certo momento uma reagudização, com replicação viral e as lesões, que eram subclínicas, passam a ser clínicas, inclusive com a possibilidade de transformação maligna.

3 - Lesões clínicas: são aquelas percebidas macroscopicamente. São verrugas, lesões de colo uterino que podem caminhar para uma persistência viral com posterior malignidade ou desaparecerem com ou sem tratamento.

Para resumir: o que vai acontecer após a pessoa adquirir o HPV depende muito de seu estado imunitário. Ela pode ficar com o vírus por muitos e muitos anos sem nenhuma manifestação quer clínica, quer laboratorial. Pode eliminar o vírus (e nesse caso pode se reinfectar novamente!) e pode em certo ponto desses muitos e muitos anos que está com o vírus em estado latente acabar manifestando sintomas ( como se o vírus "acordasse").

E o que pode ter acontecido com nossa paciente?
É muito provável que o marido tenha adquirido HPV num namoro anterior. Mesmo tendo terminado realmente esse relacionamento e, portanto, mesmo sem trair a esposa presentemente, ele deve ter lhe passado o vírus que provavelmente ficou muitos anos latente (o marido nunca teve sintomas). É provável que a esposa, após anos com o vírus (não se pode precisar quanto), tenha desenvolvido a doença. E talvez o vírus tenha sido realmente eliminado, nesse meio tempo, do organismo do marido.
De qualquer forma a reposta à pergunta: "é possível que eu tenha HPV e meu marido não?" é SIM. É possível que apenas um dos cônjuges tenha e o outro não, mesmo sem traição nessa história.
Mas quando casamos com alguém, por melhor que essa pessoa seja presentemente, ela pode ter contraído HPV no passado e que, por ser um vírus de latência muito prolongada, acaba manifestando-se muitos anos após o casamento.

Fonte: Jornal Brasileiro de Doenças Sexualmente Transmissíveis - 2008; 20(2):108-124
 

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